Depois de ter se candidatado à compra do Banco Master, a Fictor, instituição financeira que atua no ramo de alimentos, infraestrutura e financeiro, e que patrocina o time de futebol do Palmeiras, é alvo de um questionamento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Segundo o órgão que fiscaliza o mercado de capitais brasileiro, a empresa prometeu retornos financeiros acima da média do mercado a seus investidores.
Desde o fim do ano passado, a empresa tem atrasado o pagamento a clientes que aplicaram em seus contratos de Sociedade em Conta de Participação (SCP). A Associação Brasileira de Assessores de Investimento (Abai), entidade que representa 150 escritórios que totalizam 10 mil desses profissionais no país, entrou com pedido de consulta junto à CVM contra a Fictor.
De acordo com documento protocolado pela Abai junto à CVM, nesses contratos, a Fictor oferece retornos de 2% a 3% ao mês e até 18% ao ano. No mercado, o retorno de um CDB, por exemplo, é de 1% ao mês, em média na renda fixa, o que totaliza 12% ao ano. A Selic, a taxa básica de juros, está em 15% ao ano.
Além disso, diz o documento da Abai, a Fictor estaria praticando uma política “agressiva” de oferta desses contratos através de comissão (o chamado “rebate”) de até 2% sobre o valor investido oferecidos a assessores de investimentos.
Essa prática, diz a Abai, incentivaria a venda desses contratos “à margem das instituições integrantes do sistema de distribuição (corretoras e DTVMs) às quais os assessores estão vinculados, resultando inclusive no descredenciamento de profissionais pelas áreas de compliance”.
Relembre o que é a Fictor
A Fictor é uma holding que tem negócios na área de alimentos, infraestrutura e finanças. A empresa tem participações em empresas. Foi fundada em 2007, em São Paulo, e criada originalmente como uma startup de tecnologia. Passou por um reposicionamento em 2020 e se transformou em uma companhia de investimentos e gestão de ativos (private equity), com foco em setores considerados estratégicos da economia.
O braço de alimentos da Fictor passou a ter ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, após um “IPO reverso” em 2024: a holding Fictor comprou a empresa listada Atompar para entrar no pregão de forma mais rápida.
A Fictor tem expandido seus negócios através de aquisições estratégicas no agronegócio. Um dos focos da empresa é o setor de proteína animal. De acordo com informações do terceiro trimestre de 2025 (a empresa ainda não divulgou o balanço do último trimestre do ano passado), a Fictor Alimentos tinha R$ 57 milhões em caixa e um ativo total de R$ 68 milhões. No período, a empresa informou ter tido um prejuízo de R$ 2,9 milhões.
Em novembro do ano passado, a Fictor Holding Financeira anunciou que se associou a “um consórcio formado por investidores dos Emirados Árabes Unidos” para comprar o banco de Daniel Vorcaro e prometia um “aporte imediato” de R$ 3 bilhões para o “fortalecimento da estrutura de capital do banco”.
Mas, no mesmo dia da oferta da Fictor (17 de novembro), o banqueiro Daniel Vorcaro foi preso na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF). No dia seguinte, o Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central.
No mercado, a avaliação foi de que o anúncio da operação do Master com a Fictor foi uma tentativa de criar uma cortina de fumaça para Vorcaro para ganhar tempo e evitar a liquidação de seu banco.