O choque no fornecimento de petróleo no Estreito de Ormuz ainda não derrubou a demanda porque países ricos estão usando seus estoques e pagando mais caro para garantir abastecimento. Mas especialistas afirmam que esse alívio é temporário.
Quanto mais tempo essa rota vital de petróleo seguir fechada, mais o consumo terá que ser reduzido. Na prática, isso significa que as pessoas terão que comprar menos — seja por preços que não conseguem pagar, seja por intervenção governamental para forçar a redução do consumo.
Com o bloqueio chegando à nona semana, a chamada destruição de demanda — que começou em setores menos visíveis, como o petroquímico na Ásia — começa a se espalhar, de forma silenciosa, para mercados do dia a dia no mundo todo.
Os setores e mercados mais dependentes – incluindo plantas petroquímicas na Ásia e no Oriente Médio, e embarques de gás liquefeito de petróleo (GLP), um combustível essencial para cozinhar na Índia – sofreram impacto imediato quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro.
Agora, com o impasse entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e seus adversários iranianos se prolongando, o impacto está se deslocando cada vez mais para o Ocidente — e para produtos centrais no dia a dia dos consumidores.
Risco de recessão global
Devido a alta do preço, a demanda global por petróleo caminha para registrar neste mês a maior queda em cinco anos, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), que coordenou medidas emergenciais entre grandes economias para enfrentar o choque de oferta.
A trading Gunvor Group estima que a perda pode dobrar no próximo mês, chegando a 5 milhões de barris por dia — ou 5% da oferta mundial — e, junto com outras grandes tradings, vê risco crescente de recessão econômica. Outros analistas e traders afirmam que o impacto já atingiu cerca de 4 milhões de barris por dia.
Esse custo começa a se materializar. A Alemanha reduziu pela metade suas projeções de crescimento econômico, enquanto o Fundo Monetário Internacional cortou suas estimativas globais, citando a guerra. No cenário mais “severo” entre três modelados pelo Banco Central Europeu, o Brent atinge pico de US$ 145 por barril e reduz pela metade o crescimento da região.
A necessidade de a demanda por petróleo e a atividade econômica se ajustarem para baixo — provavelmente por meio de preços que desestimulem o consumo — só aumentará a cada dia em que o estreito permanecer fechado.
Diesel vira ponto crítico
Uma área particularmente sensível são os chamados destilados médios, que incluem o diesel. Os preços na Europa superaram US$ 200 por barril no mês passado, o maior nível desde 2022. Na Índia, operadores de frotas de caminhões já se preparam para racionamento de combustível e os primeiros aumentos relevantes no preço do diesel em anos.
A aviação também é particularmente vulnerável. Companhias aéreas na Ásia foram das primeiras a reagir, com empresas vietnamitas e a Air New Zealand reduzindo rotas. Agora o impacto se espalha, com a Deutsche Lufthansa cortando 20 mil voos de curta distância de sua programação de verão europeu e a KLM reduzindo operações.
Mesmo nos EUA — relativamente protegidos pela abundância de energia doméstica — a United Airlines está reduzindo o crescimento planejado em cerca de 5% e agora espera que sua capacidade na segunda metade de 2026 fique estável ou cresça até cerca de 2% em relação ao ano anterior.