Os efeitos da guerra sobre a economia global vão além do petróleo e já atingem cadeias produtivas estratégicas. O conflito ameaça a produção de semicondutores e pressiona o setor de alimentos ao reduzir a oferta de fertilizantes. A escassez de insumos agrícolas já impacta algumas economias e deve alcançar o Brasil nas próximas semanas.
O Oriente Médio concentra parcela relevante da produção global de fertilizantes e matérias-primas essenciais para insumos agrícolas. No início do conflito, o Brasil foi parcialmente poupado, já que a safra havia sido plantada. Os Estados Unidos, no entanto, ainda estavam em fase de plantio e sofreram impactos mais imediatos. Agora, porém, o prazo começa a se esgotar também para os produtores brasileiros.
O Brasil conta com múltiplos fornecedores para os principais insumos, mas ainda depende de regiões específicas para determinados componentes. O nitrogênio, essencial para culturas como milho e trigo, tem cerca de 40% da produção global concentrada no Oriente Médio. Já o enxofre, utilizado na fabricação de fertilizantes fosfatados, também enfrenta restrições de oferta. A Rússia, importante fornecedora de potássio, enfrenta seus próprios desafios geopolíticos.
Nesse contexto, o aumento de custos já é uma realidade. A incerteza agora recai sobre a possibilidade de interrupções mais severas no fornecimento. O calendário agrícola ainda oferece alguma margem, mas o setor enfrenta a combinação de insumos mais caros e risco de escassez. Projeções da MB Agro indicam que a inflação de alimentos, antes estimada em 2,5%, pode alcançar 5% — com possibilidade de alta adicional caso o conflito persista.
Os gargalos provocados pela guerra também atingem outras cadeias industriais. O fechamento do Estreito de Ormuz elevou os preços e, após semanas, passou a comprometer o abastecimento. Além de combustíveis, há impactos na petroquímica e até na oferta de gás hélio, insumo essencial para a produção de chips. O Catar responde por cerca de 30% da oferta global desse gás.
Em paralelo, países adotam medidas para proteger seus mercados internos. A China, por exemplo, restringe exportações de fertilizantes, enquanto outras economias avaliam racionamento de energia e insumos.
Estimativas indicam que a produção global de petróleo já caiu entre 7 e 9 milhões de barris por dia. Ainda assim, há avaliações de que, uma vez encerrado o conflito, a oferta poderia ser restabelecida em poucas semanas, com apoio de países da OPEP.
Diante desse quadro, o Banco Central destacou a incerteza quanto à duração e aos desdobramentos da guerra, além dos impactos sobre as cadeias globais de suprimento. Esse ambiente reforça a necessidade de cautela na condução da política monetária. Diante disso, o Banco Central do Brasil optou por um corte mais moderado da taxa de juros, de 0,25 ponto percentual, mesmo em um ambiente de juros elevados.