O avanço da inteligência artificial foi impulsionado por trilhões de dólares em empréstimos e investimentos. Agora, porém, cresce a preocupação de investidores com a capacidade das empresas do setor de continuar captando recursos e honrar suas dívidas.
O alerta ganhou força na semana passada, quando investidores perderam a confiança na CoreWeave, empresa especializada em infraestrutura para inteligência artificial. Os títulos de dívida da companhia despencaram, em meio a preocupações com seu elevado endividamento.
A empresa acumulou US$ 72 bilhões em passivos para operar 51 data centers. Diante das incertezas sobre sua situação financeira, investidores passaram a atribuir uma probabilidade superior a 60% de que a companhia não consiga cumprir suas obrigações, segundo dados citados na reportagem original.
A desconfiança também atingiu outras empresas ligadas à expansão da IA, como a Oracle e o SoftBank, gigante japonesa de tecnologia que fez grandes apostas no setor, incluindo uma parceria com a OpenAI.
Dívidas mais caras ameaçam investimentos em IA
A deterioração da confiança dos investidores pode ter consequências para todo o setor. Além de provocar perdas para quem já possui títulos de dívida dessas empresas, a desvalorização pode encarecer futuras captações de recursos.
Com juros mais altos, financiar a construção e a operação de data centers — instalações que concentram os equipamentos necessários para processar grandes volumes de dados — fica ainda mais caro.
O custo da proteção contra calotes de empresas ligadas à inteligência artificial também aumentou. Segundo o banco Barclays, o prêmio adicional exigido pelos investidores para assumir riscos em dívidas relacionadas ao setor subiu mais de 50% nos últimos seis meses.
O movimento levanta uma questão central: os problemas financeiros da CoreWeave, da Oracle e do SoftBank são casos isolados ou indicam riscos mais amplos no modelo de financiamento da infraestrutura de inteligência artificial?
Modelo de negócios da CoreWeave levanta dúvidas
Parte das preocupações está relacionada ao funcionamento da CoreWeave. A empresa compra chips da Nvidia e de outros fabricantes e contrata proprietários de data centers para utilizar suas instalações por períodos que podem superar 15 anos. Depois, oferece capacidade de processamento a clientes como Meta, Microsoft e OpenAI, em contratos que podem ter prazos menores.
O modelo cria um desequilíbrio potencial: a CoreWeave assume compromissos financeiros de longo prazo, mas não tem a mesma garantia de permanência de seus clientes.
A companhia precisa arcar com os custos de aquisição de equipamentos e operação da infraestrutura, mesmo antes de ocupar toda a capacidade disponível. Se a demanda diminuir ou os clientes deixarem de renovar os contratos, a empresa poderá continuar responsável por despesas elevadas.
Por isso, alguns investidores e analistas comparam sua estrutura financeira à da WeWork, empresa de escritórios compartilhados que enfrentou graves dificuldades financeiras. A CoreWeave, porém, rejeita a comparação. Em comunicado, a porta-voz Lia Davis afirmou que a complexidade da estrutura de financiamento reflete disciplina financeira, da qual a empresa se orgulha.
Grandes empresas também entram no radar
As preocupações não se limitam às companhias especializadas em infraestrutura. Investidores também demonstraram cautela com empresas de tecnologia de grande porte, conhecidas como hiperescaladoras, que operam extensas redes de data centers para serviços em nuvem e inteligência artificial.
Entre elas estão Meta e Alphabet, controladora do Google, que continuam recorrendo ao mercado de dívida para financiar seus investimentos. Embora essas empresas tenham enfrentado aumentos mais moderados nos juros de novas captações, investidores também venderam títulos que já haviam emitido.
Outra dúvida é se companhias como Meta e Microsoft continuarão dependendo de fornecedores externos de infraestrutura ou se poderão reduzir essa necessidade no futuro. Há ainda o risco de que equipamentos e instalações se tornem obsoletos antes que os investimentos realizados sejam totalmente recuperados.
O volume de recursos necessário para sustentar a expansão da inteligência artificial continua crescendo. Bancos, economistas e empresas de investimento projetam novas necessidades de financiamento para construir os sistemas que, segundo os defensores da tecnologia, deverão transformar diferentes setores da economia.
Ao mesmo tempo, a participação de fundos de investimento, seguradoras, empresas de private equity e investidores individuais ampliou a exposição do mercado ao setor. Nesse cenário, a capacidade de gerar receitas suficientes para pagar as dívidas se tornou uma questão decisiva para a continuidade da expansão da inteligência artificial.