A queda dos juros no Brasil em 2027 dependerá do equilíbrio das contas públicas e do cenário econômico internacional, além do resultado das eleições presidenciais. Economistas avaliam que fatores como a alta do petróleo, os efeitos do El Niño e o aumento dos juros nas principais economias do mundo podem limitar o ritmo de redução da taxa básica pelo Banco Central (BC).
Atualmente, a taxa Selic está em 13,75% ao ano, após cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual. A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está marcada para os dias 3 e 4 de novembro, a primeira decisão sobre os juros após o segundo turno das eleições.
Segundo o Boletim Focus, a expectativa do mercado é que a Selic termine 2026 em 13,25% e chegue a 12% ao fim de 2027. A continuidade dos cortes, porém, dependerá da evolução da inflação e da adoção de medidas concretas para equilibrar as contas públicas.
Banco Central deve manter cautela
A avaliação predominante entre economistas é que o Banco Central não deve acelerar o ritmo de cortes ainda em 2026. A continuidade da redução da Selic dependerá de sinais mais claros de desaceleração da inflação e de melhora das contas públicas.
A autoridade monetária deve priorizar a implementação de medidas fiscais concretas antes de reagir às expectativas do mercado. Anúncios de ajuste podem influenciar os preços dos ativos financeiros, mas não garantem, por si só, uma redução sustentável da inflação.
O resultado eleitoral poderá influenciar principalmente a continuidade do ciclo de cortes. Uma vitória de Flávio pode reforçar as expectativas de um ajuste fiscal mais robusto. Em caso de reeleição de Lula, a reação do câmbio também poderá afetar as decisões do Banco Central.
A cautela é considerada importante para garantir que a redução dos juros seja sustentável, especialmente em um ambiente internacional marcado por inflação persistente e taxas elevadas.
Petróleo e El Niño pressionam a inflação
Além da política fiscal, o cenário internacional representa um obstáculo para a queda dos juros brasileiros. O petróleo continua acima de US$ 100 por barril, pressionado pelas restrições ao tráfego no Estreito de Ormuz e pelos ataques a embarcações na região. A alta pode encarecer os combustíveis e pressionar outros preços da economia.
Outro fator de preocupação é o El Niño, fenômeno climático que pode alterar o regime de chuvas e as temperaturas no Brasil, com efeitos sobre a produção agrícola e os preços de alimentos, como frutas, hortaliças e carnes. A expectativa é que seus impactos persistam até meados de 2027.
Também podem surgir pressões inflacionárias relacionadas ao fim da escala de trabalho 6×1, especialmente no setor de serviços, e à implementação da Reforma Tributária sobre o consumo. Uma eventual recomposição de impostos sobre combustíveis e novos reajustes do diesel também podem influenciar os preços.
Nesse cenário, a inflação deve continuar pressionada em 2027 pelos efeitos do petróleo, do El Niño e pela resistência dos preços dos serviços. A projeção do economista Leonardo França Costa, do ASA, é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) termine o próximo ano em 4,5%, acima da meta de 3%.
Uma desaceleração mais intensa da economia brasileira, por outro lado, poderia reduzir as pressões inflacionárias e facilitar a aproximação das expectativas em relação à meta.
Crise fiscal no exterior também afeta os juros brasileiros
O aumento dos déficits públicos em economias desenvolvidas, como Estados Unidos, França e Reino Unido, é outro fator que dificulta a redução da Selic.
Com o crescimento das necessidades de financiamento desses países, os juros dos títulos públicos de longo prazo sobem e pressionam as taxas globais. Para atrair investimentos estrangeiros e evitar a saída de capitais, países emergentes como o Brasil precisam manter retornos competitivos.
A resiliência da economia brasileira também limita o espaço para cortes mais rápidos. Mesmo com sinais de desaceleração da atividade, o mercado de trabalho continua aquecido, o que sustenta a pressão sobre a inflação de serviços. O próprio Banco Central projeta inflação de 3,9% em 2027 e afirma que a extensão do ciclo de redução dos juros dependerá das novas informações disponíveis.
Nesse cenário, a expectativa é que o BC mantenha uma estratégia gradual. Uma aceleração dos cortes dependerá de um ajuste fiscal capaz de reduzir as expectativas de inflação e aliviar as pressões sobre os preços. Caso esses sinais não apareçam, a autoridade monetária poderá manter a Selic elevada por mais tempo ou até interromper o ciclo de redução.