Se no passado a Argentina já se fechou para o comércio exterior para implementar um plano clássico de substituição de importações como estratégia para impulsionar a indústria nacional, desta vez o cenário é outro.
O país latino enfrenta entraves cada vez maiores para a importação de produtos, e as consequências sentidas são a falta de insumos médicos, remédios, automóveis, materiais de construção e até de alimentos.
Com a inflação desenfreada, que ultrapassa 100 % ao ano, a Argentina vive uma escassez de dólares. E a baixa reserva da moeda americana dificulta negociações com o mercado exterior, prejudicando a importação e exportação, o que acaba encarecendo os produtos. As reservas da moeda americana estão acabando, após uma forte seca na lavoura e uma dívida de US$ 45 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Entenda a crise da Argentina. Será que o Brasil pode viver algo parecido ?
Reservas internacionais em dólar
Começando pelo principal, as reservas cambiais do Brasil e da Argentina são bastante discrepantes.
Dados recentes do Banco Central da Argentina (BCRA, na sigla em espanhol) mostram que as reservas internacionais dos hermanos somam US$ 34 bilhões. Já as reservas brasileiras são bem maiores. Os números mais recentes do Banco Central (BC) brasileiro indicam reservas de US$ 345 bilhões.
Essas reservas internacionais têm diversas finalidades, como honrar pagamentos internacionais e, em países de câmbio flutuante, evitar choques externos de oscilações contra a moeda local.
Assim, a falta de dólar e as oscilações frente a outras moedas nacionais criam um cenário de incerteza e instabilidade, como é o caso argentino.
Câmbio flutuante x múltiplos câmbios
Na Argentina, a falta de dólares tem sido um problema para as empresas brasileiras. Cerca de 200 companhias estão sem receber devido à escassez de reservas.
Desde 2002 o país adota o câmbio flutuante — mas a Argentina voltou a controlar e liberar a oscilação das cotações até 2019, quando recebeu um ultimato do FMI e passou a adotar de vez a flutuação do dólar. O câmbio flutuante funciona no Brasil desde 1999.
Mas nos nossos “hermanos” criou-se uma situação, no mínimo, peculiar. Isso porque a Argentina tem mais de 19 taxas oficiais para a moeda dos EUA.
Por exemplo, o “dólar oficial” usado como referência pelo BCRA, custa hoje 235 pesos argentinos. Já o dólar blue (paralelo) pode ser vendido por até 471 pesos, segundo as cotações desta quarta-feira (10); o dólar “turismo” está cotado em 474 pesos — e por aí vai.
No Brasil, a taxa oficial calculada diariamente pelo BC é chamada dólar PTAX e é a referência para o mercado brasileiro. Ele é calculado por uma média das negociações do dólar comercial, que oscila conforme a compra e venda. Existe ainda o chamado dólar turismo, uma cotação especial para quem vai viajar, calculado pelas casas e corretoras de câmbio.
Inflação descontrolada e a relação com o dólar
Como foi dito anteriormente, as reservas internacionais são utilizadas para transações entre países. A ausência de dólares dificulta a importação e exportação, o que acaba encarecendo os produtos.
Encurtando um grande resumo histórico, a economia argentina já foi oficialmente dolarizada. Na passagem de 1991 para 1992 entrou em vigor o chamado Plano Cavallo, que colocava paridade de 1 para 1 do austral (como era chamada a moeda argentina na época) com o dólar — algo próximo do que foi o Plano Real de 1994.
Entretanto, na passagem de 2001 para 2002, a intensa convulsão social obrigou a Argentina a abandonar a paridade com o dólar e decretar o chamado “corralito”, bloqueio das contas dos cidadãos. A moeda voltou a se chamar peso e o câmbio passou a ser livre novamente.
Mas a economia da Argentina nunca deixou de ser totalmente dolarizada. Assim como acontece no Brasil, o dólar tem uma influência no preço final dos produtos, o que acaba gerando uma inflação marginal em toda economia.
Em países com reservas, essa oscilação pode ser controlada. Já para o caso argentino, a soma de todos os fatores citados não poderia ser diferente: a expectativa dos analistas é de que, ao final de 2023, a inflação acumule 120% de alta.