As tentativas de golpes com ‘deepfakes caseiros’ aumentaram 400% no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo levantamento da Unico, empresa especializada em verificação de identidade.
O novo tipo de fraude é praticado, em muitos casos, por pessoas sem conhecimento técnico avançado. Com aplicativos de inteligência artificial disponíveis na internet, criminosos conseguem criar vídeos e imagens para tentar se passar por familiares ou conhecidos das vítimas. O objetivo é enganar sistemas de prova de vida e verificação de identidade usados por bancos, instituições financeiras e lojas virtuais. As tentativas podem envolver saques, contratação de empréstimos e realização de compras.
Tecnologia mais acessível facilita golpes
Deepfakes são conteúdos digitais produzidos ou alterados com inteligência artificial, capazes de recriar ou modificar rostos, vozes e movimentos de pessoas. Nos últimos anos, a tecnologia se popularizou e passou a ser utilizada não apenas em ataques sofisticados, mas também por criminosos comuns. Aplicativos com interfaces simples reduziram a necessidade de conhecimentos técnicos para produzir esse tipo de conteúdo.
Em documento divulgado no fim de julho, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) destacou justamente essa facilidade. Segundo o órgão, a automação e a simplificação das ferramentas permitiram que usuários sem conhecimentos técnicos profundos passassem a produzir falsificações visuais e sonoras cada vez mais realistas.
A mudança também aparece nos dados da Unico. No ano passado, fraudes consideradas sofisticadas, que exigiam conhecimento avançado de tecnologia e a capacidade de explorar falhas em sistemas, representavam 61% dos ataques identificados pela empresa. Neste ano, essa parcela caiu para 14%. A redução está relacionada ao crescimento dos chamados deepfakes caseiros, classificados pela empresa como ‘golpes simples’.
Brasil concentra parte dos casos na América Latina
O avanço da tecnologia também tem sido apontado por autoridades e especialistas como um problema de segurança digital. Deepfakes já são utilizados em diferentes tipos de crime, incluindo fraudes financeiras, desinformação e produção de conteúdo sexual falso envolvendo mulheres e menores.
Segundo o documento da ANPD, o Brasil concentrou 39% dos casos de deepfake registrados na América Latina em 2025. No mesmo período, houve aumento de 126% nos ataques que utilizaram imagens, vozes e identidades falsas em comparação com o ano anterior.
Uma pesquisa da Veriff, empresa de verificação de identidade digital, mostra ainda que 80% dos brasileiros já tiveram contato com deepfakes no ambiente digital. O índice é superior à média internacional, de 60%.
Apesar da ampla exposição ao conteúdo, a identificação ainda é difícil. Apenas 29% dos brasileiros entrevistados conseguiram reconhecer corretamente um vídeo falso, enquanto 35% identificaram quando um vídeo era verdadeiro.
Unico diz ter barrado R$ 19,6 bilhões em tentativas de fraude
No primeiro semestre, a Unico afirma ter impedido R$ 19,6 bilhões em tentativas de fraude, alta de 23% em relação ao mesmo período do ano passado. Ao todo, foram registrados mais de 13 milhões de ataques fraudulentos contra empresas de 23 setores da economia.
No caso específico dos deepfakes caseiros, a maior parte das tentativas ainda apresenta limitações técnicas. Sistemas de prova de vida conseguem identificar sinais artificiais relacionados à profundidade, textura e naturalidade da imagem. Isso, porém, não impede que a tecnologia seja usada em golpes de engenharia social.