A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a fraude bilionária envolvendo a Americanas. Nesta etapa, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão, incluindo buscas pessoais, nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Pela primeira vez, a investigação alcança acionistas da companhia. Entre os alvos está o empresário Carlos Alberto Sicupira, um dos controladores da Americanas. Executivos ligados aos bancos Itaú, Bradesco, Santander e XP também são investigados.
Além de Sicupira, estão entre os investigados Eduardo Saggioro, ex-integrante do conselho da empresa; Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann e também ex-conselheiro; José Rudge, co-head de Infraestrutura e Energia do Itaú BBA; Gustavo Balassiano, ex-executivo do Itaú e atualmente na XP; Carlos Henrique Villela Pedras, diretor executivo do Bradesco; Sergio Rial, ex-presidente do Santander e ex-CEO da Americanas; André Almeida, vice-presidente executivo do Santander; e Alexandre Abdo, também executivo do banco.
Segundo a PF, os suspeitos teriam conhecimento de irregularidades contábeis praticadas durante anos, envolvendo principalmente operações de risco sacado e contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) registrados sem respaldo econômico. Embora os contratos de VPC sejam comuns no setor varejista, as investigações apontam que a Americanas teria contabilizado receitas inexistentes ou inflado artificialmente os valores desses contratos para melhorar seus resultados financeiros.
Outro mecanismo utilizado teria sido o risco sacado, modalidade na qual fornecedores antecipam recebíveis por meio de instituições financeiras. A prática é legítima, mas, segundo as apurações, teria sido manipulada para ocultar dívidas e distorcer a real situação financeira da empresa. As manobras resultaram em um rombo estimado em R$ 25 bilhões, revelado em janeiro de 2023 sob a justificativa de uma “inconsistência contábil”. O episódio desencadeou uma das maiores recuperações judiciais da história empresarial brasileira.
Por determinação da 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, foi decretado o sequestro de bens e valores dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões. A nova fase da investigação tem como base três acordos de delação premiada firmados por ex-diretores da Americanas — Marcelo Nunes, Fabio Abrate e Flávia Carneiro — além da análise de dados obtidos por meio da quebra de sigilo da companhia e de depoimentos colhidos pela PF e pelo MPF nos últimos dois anos.