Os spreads das debêntures incentivadas voltaram a cair nos primeiros dias de setembro, mesmo diante de um cenário mais adverso para o crédito privado. Os papéis passaram a oferecer, em média, 4 pontos-base a menos que os títulos públicos equivalentes, reduzindo a remuneração adicional oferecida ao investidor.
As debêntures incentivadas têm como principal atrativo a isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas. Mas, com a piora dos indicadores de crédito, a queda dos spreads aumenta o risco de o investidor receber uma remuneração que não compensa adequadamente o risco assumido.
Entre os sinais de alerta estão a inadimplência do crédito livre para pessoas físicas, que está no maior nível da série histórica, o comprometimento recorde da renda das famílias com dívidas e o número de empresas em recuperação judicial. Segundo levantamento da consultoria RGF Bizdoc, 7.980 companhias estão em recuperação judicial.
Por que os spreads estão caindo?
A queda dos spreads ocorre em um momento de forte movimentação no mercado de crédito privado. Em uma única semana, fundos de crédito convencionais registraram resgates líquidos de R$ 1,6 bilhão. Para atender aos pedidos de retirada, gestores precisaram vender títulos, inclusive assumindo perdas, o que pressionou as taxas dos papéis para baixo.
Outro fator é a necessidade de os fundos reinvestirem recursos que recebem por meio de juros e amortizações. Com os níveis de caixa elevados, esses gestores precisam encontrar ativos para aplicar o dinheiro, mas o estoque disponível de títulos é limitado.
Essa combinação de oferta restrita e demanda elevada ajuda a explicar por que os spreads continuam apertados, mesmo com a percepção de aumento do risco.
Mercado de debêntures perde força
O mercado secundário também mostra sinais de enfraquecimento. Em agosto, o volume negociado de debêntures foi de R$ 65 bilhões, o menor valor desde março de 2025. No mercado primário, a situação também é de cautela.
A Sparta analisou seis ofertas de títulos em agosto, que somaram R$ 4,9 bilhões, mas decidiu não investir em nenhuma delas. Segundo a gestora, os negócios foram descartados por questões relacionadas a preço ou risco.
Para a casa, os preços das debêntures tradicionais continuam elevados diante das condições de liquidez e do fluxo de recursos no mercado.
Empresas ainda sofrem com juros altos
A piora dos indicadores financeiros das empresas é outro motivo de preocupação. A TAG Investimentos analisou os balanços de 44 companhias do Ibovespa no segundo trimestre. Desconsiderando bancos e Petrobras, a despesa financeira consumiu 6,6% da receita das empresas, contra cerca de 5% um ano antes.
O percentual chama atenção porque o varejo, por exemplo, costuma operar com margem líquida inferior a 5%. Para a gestora, o número de empresas em dificuldade ainda pode aumentar, mesmo com a expectativa de queda da Selic.
Isso acontece porque os efeitos da política monetária sobre a saúde financeira das empresas aparecem com defasagem. Segundo a TAG, o impacto sobre a insolvência ocorre cerca de 14 meses depois da mudança dos juros e pode chegar a 34 meses no agronegócio.
Corte da Selic pode demorar para aliviar o crédito
A Riza Asset também vê obstáculos para uma recuperação rápida do mercado de crédito. Para a gestora, a política monetária tem alcance limitado porque uma parcela significativa das operações de crédito não reage diretamente às mudanças da Selic.
Segundo os cálculos da casa, menos de 19% do crédito livre destinado às famílias responde de forma identificável à Selic. O restante está concentrado em linhas cujas taxas são definidas por regras específicas e não acompanham imediatamente a taxa básica de juros. Por isso, mesmo com eventual redução da Selic, a melhora das condições de crédito pode levar tempo.
O que o investidor deve fazer?
Diante desse cenário, gestores recomendam mais seletividade e atenção à liquidez. A estratégia não é necessariamente abandonar o crédito privado, mas evitar aumentar a exposição sem avaliar se a remuneração oferecida compensa o risco.
A XP, por exemplo, recomenda limitar a concentração em um único emissor a 5% da carteira e manter em até 20% a exposição total ao crédito privado, considerando investimentos diretos e fundos. Para setembro, a casa reduziu a preferência por crédito privado pós-fixado e aumentou a exposição a títulos prefixados.
O Santander, por outro lado, avalia que ainda existem oportunidades em ativos de boa qualidade, inclusive entre as debêntures incentivadas. Para isso, porém, é necessário analisar individualmente o emissor, a estrutura da operação, as garantias, o prazo e a remuneração.
A recomendação, portanto, é evitar olhar apenas para a isenção de Imposto de Renda ou para o rendimento anunciado. Com os spreads mais apertados e os sinais de deterioração do crédito, um título que paga pouco a mais pode não compensar o risco adicional em relação a um título público.