A economia da Argentina voltou ao centro do debate político brasileiro, com o modelo do presidente Javier Milei citado como referência para propostas de redução de impostos e burocracia. Os indicadores mostram resultados distintos: o país voltou a crescer e reduziu a inflação, mas a pobreza e o desemprego aumentaram, enquanto setores da indústria e do consumo interno enfrentam dificuldades.
PIB cresce, mas economia perde ritmo
O PIB argentino cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 e 2% no segundo, na comparação com os mesmos períodos de 2025. Entre abril e junho, porém, a economia encolheu 0,6% em relação ao trimestre anterior.
No período, o consumo privado caiu 2,4%, o consumo público recuou 2,3% e os investimentos diminuíram 0,8%. Na comparação anual, os investimentos tiveram queda de 11,1%.
Enquanto a agropecuária e a mineração avançaram, a indústria manufatureira recuou 2,1% no segundo trimestre. As exportações cresceram 13,7%, e as importações caíram 8,6%.
Os números indicam uma recuperação desigual, com melhor desempenho de setores ligados às exportações e dificuldades nas atividades mais dependentes do mercado interno.
Inflação cai, mas pobreza aumenta
A inflação acumulada em 12 meses, que chegou a quase 290%, recuou para cerca de 30% durante os primeiros dois anos do governo Milei. Em agosto de 2026, a alta mensal dos preços foi de 1,7%. A desaceleração ocorreu em meio a um ajuste fiscal que incluiu cortes de gastos públicos e retirada de subsídios.
A pobreza, porém, voltou a subir. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), a parcela da população nessa condição passou de 28,2% no segundo semestre de 2025 para 32,3% no primeiro semestre de 2026. O número de pessoas em situação de extrema pobreza também aumentou, de 1,9 milhão para 2,2 milhões.
Desemprego e indústria sob pressão
A taxa de desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% no mesmo período do ano anterior. Além disso, quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade.
O número de empregadores com ao menos um funcionário registrado caiu de 512.357, em novembro de 2023, para 480.067, em julho de 2026, uma redução de 6,3%, segundo a Superintendência de Riscos do Trabalho.
A maior abertura às importações também aumentou a concorrência para a indústria local. De acordo com o Centro de Economia Política Argentina (CEPA), as compras externas de bens de consumo cresceram 34,7% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2023. Na mesma comparação, a produção industrial caiu 12%.
Os dados mostram que a desaceleração da inflação e o crescimento econômico ainda não se traduziram em melhora contínua das condições de vida. O desafio do governo é sustentar a recuperação, estimular investimentos e ampliar a geração de empregos sem perder os avanços obtidos no controle dos preços.